"Posso levantar meu braço sem usar a memória? Preciso ser flexível? Devo realmente fazer um asana com perfeição? Estou sentindo a tensão ou estou lutando contra ela? Acredito ter feito essas posturas centenas de vezes ou posso realizar o movimento como se fosse a primeira vez? Posso simplesmente “ouvir” sem aceitar ou rejeitar nada? Posso observar os comentários que minha mente emite enquanto pratico sem tentar mudar meus pensamentos? Realmente preciso relaxar meu corpo? 

Qualquer uma dessas questões experimentadas através da prática dos asanas encontrarão um espaço de resposta que pode ser levado à vida diária sem esforço. 

Essas perguntas são a base do yoga tântrico não dualista, uma prática que segue os ensinamentos escritos nos Tantras em torno do século X e XI na Caxemira. Transposto para responder às necessidades do mundo de hoje, esta não é uma abordagem progressiva. Não há necessidade de relaxamento, purificação ou flexibilidade. Não há nenhum lugar onde ir e nada a alcançar ou ganhar, somente há o retorno àquilo que já está lá e que nunca nos deixou. 

Uma mente clara surge quando a dinâmica de mudar a si mesmo e ao mundo cai diante da evidência de que a realidade é perfeita assim como ela é e de que o sofrimento vem da necessidade de tentar mudar o mundo, ou seja, da rejeição ao mundo assim como ele é.

O corpo que experimento a cada dia é memória e memória é tensão. Essa prática irá explorar esse corpo de memória para suavemente eliminar toda a reatividade contida nele. Quando finalmente deixo de tentar me relaxar, a tensão pode se expressar e então desaparecer. 

Com a prática do yoga tântrico da Caxemira aprenderei a não “fazer” o asana, ou seja, permitir que o asana naturalmente apareça no espaço de não expectativa. Quando a reação desaparece, posso experimentar o “vazio” e um corpo que organicamente se alinha com os asanas. 

Eu devo estar pronto para explorar o desconhecido.

Repetição é uma ilusão e toda prática é sempre nova... “O que sou se me entrego ao não fazer?” é a pergunta que essa prática irá explorar.

Essa prática é para todos, desde professores de yoga a iniciantes, por que não há níveis para a sensibilidade, para explorar o Yoga da Caxemira.

 

São José do Rio Preto | Julho de 2018

 
 
 

Referência mencionada: a história dos monges e do elefante

 

 

Referência mencionada: Revolucion De Un Rastrojo (Spanish translation) - The One-straw Revolution by Masanobu Fukuoka

TRADUÇÃO DE THIAGO GOULART

"Como todas as expressões do humano, integradas em uma disponibilidade livre de demandas, a sexualidade se transforma. A eliminação das relações afetivas, da fantasia de amar ou ser amado, do imaginário de estar ou não com alguém, assim como a experiência de uma corporalidade sem necessidades a não ser a plenitude do instante, são transformação. Muitas outras ramificações desta liberdade irão se transpor no campo da riqueza corporal. Esses sentimentos não são os meios de uma realização qualquer, eles são extensões de uma não-demanda que, só, permite a escuta da riqueza tátil do instante."

Éric Baret - Corps de Vibration, Corps de Silence, pag. 43

 

E para complementar, respondendo a uma questão por parte de um dos interessados em participar do retiro:

Pergunta: Ela vai abordar temas da sexualidade tântrica?

Resposta: "Fazemos um trabalho de sensibilização que não implica nenhuma referência ou prática envolvendo a sexualidade. Podemos discutir certas questões que se referem ao espaço íntimo na parte de perguntas / respostas, mas nossa abordagem corporal não tem nada a ver com as práticas neo-tântricas modernas, se essa é a questão."

Mariette Raina

 

“Virāsana é pouco utilizado na Índia como postura de meditação. Ela participa mais das tradições japonesa e do sudeste asiático. A energia é menos centrada que em Padmāsana ou em Siddhāsana.
Em Padmāsana, quando a postura está correta, os dois calcanhares pressionam dois centros de energia situados sobre os lados da região abdominal, o que contribui a estimulá-los. A popularidade de Padmāsana como postura de meditação vem da influência da iconografia budista de Shakyāmuni em meditação. Padmāsana é sobretudo destinado ao Prānāyāma, ao despertar da energia. Mas a verdadeira postura de meditação é Siddhāsana.
Para o Shivaísmo, Siddhāsana é o āsana último. Não é unicamente a posição das pernas, mas ela inclui também Jnāna-mudrā para as mãos. Este Mudrā que é o purificador do mental não convêm ao Padmāsana. Esta postura estimula a verdadeira verticalidade e provê uma calma muito grande. Participa também de Siddhāsana: Shambhavi-mudrā, que significa trazer o olhar para a parte posterior da cabeça, resultando numa grande redução da atividade do cérebro frontal. Os gestos das mãos e do olhar bastam para dar uma total disponibilidade ao desconhecido. A agitação desaparece. É a postura na qual o ensinamento é recebido, na qual os poderes são transmitidos de mestre a aluno. Em Padmāsana ainda há muitas vezes uma intenção, visamos despertar a energia. Siddhāsana é além de todo objetivo, é a abertura sem projeção, a abdicação.”

Éric Baret - Le Yoga Tantrique du Cachemire, págs. 83-84

 

Pergunta: "O retiro será muito intenso ao nível físico?"

Resposta: Como organizador do retiro e por já ter entrado em contato com o Yoga Tântrico da Caxemira, respondi que não, pois bem sei que após mais de 8 anos de prática de "ashtanga as it is", ou seja, praticando 6x por semana, até onde o guru determina que você vá (o que muitos ashtangis sabem que depois, pelo resto do dia, se está imprestável para qualquer outra atividade) não fazia mais sentido a mim praticar assim, então minha prática num âmbito mais amplo me levou ao Yoga Tântrico da Caxemira.

Mas perguntei a Mariette o que ela teria a adicionar, e ela respondeu o seguinte:

Resposta: "Não, não será puxado a nível físico. Eu sempre dou a exploração das posturas em seção, isso quer dizer que cada um é livre para parar onde seu corpo lhe diz pare. Trabalhamos essencialmente sobre a escuta, em não forçar o corpo, isso é muito importante.

Com relação a nossa abordagem (Yoga Tântrico da Caxemira) é falso o forçar o corpo, pois trabalhamos sobre um outro nível. O importante não é a postura, mas como a fazemos. Durante a sessão, o praticante é convidado a explorar a postura por etapas, onde está livre de parar lá onde seu corpo lhe diz de não ir mais além. Cada um tem suas capacidade físicas específicas, diferentes, mas todos temos a mesma capacidade de escuta.
O acento de nossos encontros é de abrir espaço de escuta, pelo qual o corpo orgânico (e não o corpo físico) poderá se desdobrar por si mesmo. No voluntarismo tudo se fecha, pela escuta tudo se abre."

Mariette Raina

 

"Por que você quer se libertar do sofrimento, violência, depressão? Estes são presentes que se recebe para interrogar-se. Não há nada para mudar aí dentro. Tudo isto acontece porque há uma forma de maturação, de abertura, por isso que estes presentes vêm.
Pensar que se deve estar livre do sofrimento, se libertar da violência, isso é que é a violência. É uma forma de adiamento.
Não há nada do qual devemos ser livres. A imagem é absolutamente necessária; quando serviu a seu propósito, é eliminada como o resto.
Uma jornada espiritual é viver com o que está aí; não procurar transformar, mudar, se libertar.
Essas coisas são parte da psicologia, é uma fuga antecipada.
Se trata de viver com o que você sente e não viver com o corpo hipotético, com o corpo que devemos ter, teríamos, mas o corpo que está aí. Viver com o que é sentido, não com uma psique hipotética, tranquila, purificada, que deveria ser como isso ou como aquilo, que deveria ser aberto. Não. Viver com o que está aí: com a agitação, medo, depressão. Acolher estes elementos faz com que aconteça a transformação. Não há espaço para qualquer alteração, unicamente viver com o que existe. O que está aqui não é nada além de beleza, mas isso necessita ser ouvido, ser observado. Qualquer tentativa de se libertar, isso é sofrimento ".

Éric Baret

 

“O shivaísmo tântrico caxemiriano propõe uma abordagem extraordinária do corpo e da respiração. Tudo é nada mais que transparência, leveza e liberdade. Bem longe do voluntarismo corporal chamado no ocidente de “Yoga”, os asanas e pranayamas se transformam em criatividade, a mais completa vacuidade. Nem exotismo, nem distração, a força desta visão se revela ilimitada: são irradiados todos os aspectos da nossa existência. Da abordagem da beleza até a sexualidade, da alimentação à exploração dos corpos sutis, esta tradição luminosa revela a essência de uma arte por muito tempo reservada ao ensinamento oral, rahasyasampradaya” (sobre a transmissão de Éric Baret, Soledad Maria )

 

TRADUÇÃO DE SOLEDAD MARIA

"Você pode passar tua vida a se imaginar tendo êxitos ou fracassos. Tudo isto não é nada mais que ideologia: você não pode conquistar ou perder seja lá o que for. Um dia você estará farto de imaginar. Nesse instante tuas conquistas e fracassos imaginários, tuas fantasias de alcançar ou fracassos do futuro também serão eliminadas. Essa é a conquista, não há outra. É essa que precisa ser deixada se instalar em nós. Não há lugar para um arrependimento, uma esperança ou uma amargura: tudo isso é uma forma de agitação. Fique tranquilo, claro. A vida se desenrola em você, você não está na vida."

"Eu não preciso de nada para pressentir o que é primordial. 
Inútil de mudar o que quer que seja em mim."

Eric Baret - do Livro O Abandono